terça-feira, 11 de setembro de 2007

Crônica sobre a paixão

PAIXÂO, BEM QUE NÂO SE EXPLICA !


Olha, realmente não dá pra entender essa “coisa” que as pessoas chamam de paixão. Aliás, não há nada mais reificante que tornar algo abstrato como os sentimentos em “coisas”, dando-lhes características que pertencem a nós seres humanos. Talvez porque nossos sentimentos nada mais são do que a externalização dos nossos instintos e da nossa natureza, denotando quem somos. Por isso às vezes dizemos, “a paixão é impiedosa”, “a paixão não escolhe suas vítimas”, “a paixão deixa os homens cegos”, ..., o que me leva também a ficar tentada a aderir a esta tendência coisificadora (aliás, me perdoem, mas farei isso em vários momentos desta crônica) e afirmar, “como essa tal paixão é poderosa!”.
Que tentativa mais vã esta do ser humano. Por mais que se viva nunca será possível encontrar uma explicação plausível para a paixão. A inteligibilidade do homem é limitada, portanto, entendermos a paixão é tão impossível quanto sabermos porque temos cinco dedos em cada mão, e não seis ou sete.
Creio que quando se trata de paixão não há como não se desviar um pouco para os caminhos da irracionalidade, isso mesmo, ser alvo da paixão implica necessariamente em correr riscos, em agir de forma inusitada, imprevisível, até mesmo insana. Quando a paixão surge, diga-se de passagem, na maioria das vezes de forma inesperada, nos deixa totalmente indefesos, estupefatos, ou, para usar a linguagem o mais coloquial possível, totalmente embasbacados, achando que o mundo está com um colorido diferente.
Aliás, o imenso mundo globalizado torna-se minúsculo, do tamanho da pessoa alvo da nossa transloucada paixão. Só temos olhos para ela, só pensamos nela, às 24 horas do nosso dia passam a se resumir em imaginar onde a pessoa amada está, no que ela está pensando, o que ela está fazendo, se ela já almoçou etc. Quando apaixonados, nos pegamos ouvindo as mais bregas músicas, assistindo todos os “filmes água-com-açúcar” que encontramos na locadora, desenhando corações na capa do caderno ou nos vidros sujos dos carros, admirando as estrelas, achando a lua cheia mais cheia do que nunca ! Sem motivo algum nos pegamos sorrindo, só por ter lembrado de algo totalmente sem graça que o ser amado disse, que aos ouvidos do apaixonado soa como a mais hilariante das piadas. Diversas pesquisas promovidas por cientistas de várias partes do mundo tentam decifrar as reações fisiológicas e psíquicas dos apaixonados. A paixão nos faz produzir serotonina, afirma uns, o hormônio que nos gera prazer e sensação de bem-estar. Esbarrar casualmente com o amado no elevador pode fazer aumentar a adrenalina no nosso organismo, o que acelera o batimento cardíaco, faz o rosto enrubescer, a boca ficar seca e as pernas tremerem.
Bem, tantas explicações científicas podem dar um toque mais racional à paixão, pois não é isso que busca o mundo das ciências, dar racionalidade àquilo que não é racional ? Pode parecer piegas, mas prefiro continuar acreditando que há muito mais em relação à paixão do que possa crer a nossa vã filosofia, parafraseando o grande escritor inglês William Shakespeare. Assim como afirmou outro grande pensador: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.
E ainda que reclamemos das astutas armadilhas da paixão, que é capaz de nos tornar cegos e bobos, sempre torcemos para que ela bata à nossa porta. Quando ela nos causa dor e sofrimento a culpamos por todos os nossos males, esbravejamos contra ela e juramos nunca mais lhe abrir a porta do nosso frágil coração. Atitudes ingênuas do ser humano, pois a paixão não avisa quando vem. Não, ela não telefona, não manda e-mail, nem sequer um sinal de fumaça. E se queremos evitá-la é melhor que desistamos da vida. Pois onde há um coração que bate há um trem de pouso para este sentimento. E isso sem distinção alguma de idade, sexo, etnia, credo religioso, e qualquer outra. Ao contrário de nós seres humanos a paixão não faz acepção de pessoas.
Sem nos preocuparmos com os motivos que nos levam a nos apaixonarmos, muito menos em explicar o que acontece quando estamos inebriados por este sentimento, preferível é que o experimentemos sem temer todas as reações e emoções que a paixão proporciona ao ser humano. Dane-se se estamos sendo irracionais. A imprevisibilidade da vida nos permite vivermos algo que simplesmente não somos capazes de explicar. Mas que simplesmente adoramos e ansiamos cotidianamente viver.


By Renata Rocha.

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